O calor na cidade de Santos (SP)
Quem mora em Santos (SP) sabe que o calor dos meses de janeiro e fevereiro beira o insuportável. Lógico, há quem goste e desfrute destes dias. Com frases e fotos de "viva o sol" ou "amo o verão", me sinto bem fora do 'aquário'. Definitivamente, eu não sou dessas pessoas. A ideia de estar parada e suando não é o ideal de conforto ou prazer. No entanto, um livro de autoria de Júlio Ribeiro, escrito em 1888, precisamente no capítulo 10, descreve o meu sentimento:
“Santos, 22 de janeiro de 1887. “Minha prezada companheira de estudos.
“Aqui estou, pela primeira vez em minha vida, no porto de mar de nossa província, em Santos, terra cálida,úmida, sufocante, preferida por Martim Afonso aos feiticeiros arredores da baía de Guanabara. Os reverendos Kidder e Fletcher, no livro que publicaram sobre o Brasil, deram-se a perros para descobrirem a razão da preferência e... ficaram em jejum. O mesmo me acontece. Com efeito, por que teria Martim Afonso preferido isto ao Rio de Janeiro?
Tudo levava a crer que era o contrário que se devia dar. Que rasgo de intuição genial, que vista interna miraculosa teria revelado ao colonizador português a superioridade imensa desta zona vicentina em que há terra roxa, em que há um clima sem rival para a lavoura, sobre a orla limítrofe, de terra vermelha, árida, sequiosa ? E o caso é que sem razão aparente, sem dados aceitáveis, houve a preferência, e quê , essa preferência criou a primeiro província do Brasil, e quiçá o primeiro dos pequenos estados livres do mundo.
“Eu me vejo em apuros, mas é para dizer o que vem a ser esta nesga do litoral em relação à climatologia;é para achar-lhe um termo de comparação. “Falam no Senegal: o Senegal é mais quente, valha a verdade, mas não é tão abafado. Lá respira-se fogo, mas respira-se. Aqui não se respira nem fogo, nem coisa nenhuma. O ar é pesado, oleoso; parece que lhe falta algum elemento, isso quando não há o vento célebre que os noroeste: quando sopra, reina esse semoum africano, esse vendaval-peçonha, Santos é miniatura do inferno: Imagine- se um tufão dentro de um forno.
“Os dias são horríveis: se há chuva, o que é raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto de se poderem fritar ovos sobre as pedras das calçadas. Mas ainda há coisa mais horrível do que dias, são as noites. A atmosfera queda-se, morre. Olha-se para as flâmulas dos navios, imóveis; para as franças das árvores, imóveis; para os leques das palmeiras imóveis. A gente a asfixiar no irrespirável e morto parece-se com os mamouths que se encontram inteiros nos gelos ela Sibéria, ou com esses insetos mumificados, há milhares de anos, na transparência dourada do âmbar amarelo. É uma situação aflita; desespera, tira a coragem, dá vontade de chorar, lembra os horrores da Treva de Byron.
“A vida aqui é uma negação da fisiologia, é um verdadeiro milagre: não há hematose perfeita, as digestões são laboriosíssimas, sua-se como no segundo grau da tísica pulmonar, como na convalescença de febres intermitentes. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, já não digo por toda a vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me..
“Santos, 22 de janeiro de 1887. “Minha prezada companheira de estudos.
“Aqui estou, pela primeira vez em minha vida, no porto de mar de nossa província, em Santos, terra cálida,úmida, sufocante, preferida por Martim Afonso aos feiticeiros arredores da baía de Guanabara. Os reverendos Kidder e Fletcher, no livro que publicaram sobre o Brasil, deram-se a perros para descobrirem a razão da preferência e... ficaram em jejum. O mesmo me acontece. Com efeito, por que teria Martim Afonso preferido isto ao Rio de Janeiro?
Tudo levava a crer que era o contrário que se devia dar. Que rasgo de intuição genial, que vista interna miraculosa teria revelado ao colonizador português a superioridade imensa desta zona vicentina em que há terra roxa, em que há um clima sem rival para a lavoura, sobre a orla limítrofe, de terra vermelha, árida, sequiosa ? E o caso é que sem razão aparente, sem dados aceitáveis, houve a preferência, e quê , essa preferência criou a primeiro província do Brasil, e quiçá o primeiro dos pequenos estados livres do mundo.
“Eu me vejo em apuros, mas é para dizer o que vem a ser esta nesga do litoral em relação à climatologia;é para achar-lhe um termo de comparação. “Falam no Senegal: o Senegal é mais quente, valha a verdade, mas não é tão abafado. Lá respira-se fogo, mas respira-se. Aqui não se respira nem fogo, nem coisa nenhuma. O ar é pesado, oleoso; parece que lhe falta algum elemento, isso quando não há o vento célebre que os noroeste: quando sopra, reina esse semoum africano, esse vendaval-peçonha, Santos é miniatura do inferno: Imagine- se um tufão dentro de um forno.
“Os dias são horríveis: se há chuva, o que é raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto de se poderem fritar ovos sobre as pedras das calçadas. Mas ainda há coisa mais horrível do que dias, são as noites. A atmosfera queda-se, morre. Olha-se para as flâmulas dos navios, imóveis; para as franças das árvores, imóveis; para os leques das palmeiras imóveis. A gente a asfixiar no irrespirável e morto parece-se com os mamouths que se encontram inteiros nos gelos ela Sibéria, ou com esses insetos mumificados, há milhares de anos, na transparência dourada do âmbar amarelo. É uma situação aflita; desespera, tira a coragem, dá vontade de chorar, lembra os horrores da Treva de Byron.
“A vida aqui é uma negação da fisiologia, é um verdadeiro milagre: não há hematose perfeita, as digestões são laboriosíssimas, sua-se como no segundo grau da tísica pulmonar, como na convalescença de febres intermitentes. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, já não digo por toda a vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me..

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